BTECH Automations

NetBox

NetBox: o que é, principais recursos e vantagens para provedores e data centers

Conheça o NetBox, fonte da verdade para IPAM e DCIM: prefixos, IPs, VLANs, ASNs, racks, cabos e circuitos, API REST e GraphQL, scripts, webhooks e integração com automação.

Por Rodrigo Borges, BTECH Automations · · 10 min de leitura

Toda rede tem uma fonte da verdade, mesmo que ninguém tenha escolhido: uma planilha de IPs, um documento de racks, a memória de quem montou o POP. O problema aparece quando essas fontes discordam entre si e da rede real, e quando a automação precisa de dados confiáveis para funcionar.

O NetBox nasceu para resolver isso. Neste tutorial você vai conhecer os principais recursos, entender as vantagens em relação às planilhas e ver como provedores e data centers usam o NetBox como base da automação de rede.

O que é o NetBox

O NetBox é uma aplicação web open source para documentar e modelar redes e infraestrutura. Foi criado pela equipe de rede da DigitalOcean e hoje é mantido pela NetBox Labs, com uma comunidade grande e ativa. Ele combina duas funções que costumam ficar em ferramentas separadas:

  • IPAM (IP Address Management): blocos, prefixos, endereços IP, VLANs, VRFs e ASNs;
  • DCIM (Data Center Infrastructure Management): sites, racks, equipamentos, interfaces, cabos e energia.

A ideia central é ser a fonte da verdade (source of truth): o lugar que diz como a rede deve estar. Tudo o que é feito na rede parte dele, e não o contrário.

NetBox x planilha

AspectoPlanilhaNetBox
Conflito de IPDescoberto quando o cliente fica sem acessoEvitado: o IP aparece em uso e o próximo livre é sugerido
RelaçõesTexto solto: "porta 12 do switch 3"Objetos ligados: IP, interface, equipamento, rack, site e cliente
HistóricoQuem mudou o quê se perdeRegistro de toda alteração, com usuário, data e valor anterior
PermissõesQuem abre o arquivo edita tudoPermissões por tipo de objeto, ação e até por filtro
AutomaçãoScripts que leem colunas e quebram quando alguém muda a planilhaAPI REST e GraphQL estáveis, com bibliotecas prontas
ValidaçãoQualquer texto em qualquer célulaTipos, formatos e regras de validação

IPAM: prefixos, IPs, VLANs e ASNs

O IPAM do NetBox é hierárquico. Os agregados representam os blocos recebidos do RIR (no Brasil, do NIC.br), e dentro deles ficam os prefixos, cada um com status, função, site, VLAN e cliente. O NetBox calcula sozinho a utilização de cada nível e mostra os espaços livres.

  • Endereços IP ligados a interfaces de equipamentos ou VMs, com status, função (loopback, VIP, anycast) e nome DNS.
  • Faixas de IP para pools de DHCP, CGNAT ou PPPoE, sem precisar cadastrar endereço por endereço.
  • VRFs para espaços de endereçamento sobrepostos, como redes de gerência ou de clientes corporativos.
  • VLANs e grupos de VLAN, por site ou por equipamento, sem repetir IDs no mesmo domínio.
  • ASNs e RIRs, com o registro de quais ASNs de clientes e peers estão em cada site.

Na prática, pedir "o próximo /29 livre no bloco de clientes corporativos de Campinas" deixa de ser uma busca em planilha e vira uma chamada de API.

DCIM: sites, racks, equipamentos e cabos

O DCIM modela a parte física: regiões, sites (POPs, data centers), salas, racks com a posição de cada equipamento em U, e os próprios equipamentos com todas as interfaces.

  • Tipos de equipamento. Cada modelo (um MikroTik CCR2116, um Huawei NE8000, um Juniper MX204) é cadastrado uma vez com interfaces, portas de console e fontes. Existe uma biblioteca comunitária com milhares de modelos prontos para importar.
  • Cabos ligando interfaces, portas de console e energia, com o rastreamento do caminho completo, inclusive passando por patch panels e DIOs.
  • Energia: quadros, circuitos e PDUs, com o cálculo de carga por rack.
  • Plataformas (RouterOS, Junos, VRP, IOS XR), usadas pela automação para saber como falar com cada equipamento.

A vista de rack, com a frente e o fundo desenhados, sozinha já economiza viagens ao data center.

Circuitos, virtualização e clientes

  • Circuitos: links de operadoras e transporte, com fornecedor, ID do circuito, velocidade contratada e as duas pontas ligadas às interfaces. Quando um link cai, o número do chamado na operadora está a um clique.
  • Virtualização: clusters e máquinas virtuais com interfaces e IPs, no mesmo IPAM dos equipamentos físicos.
  • Tenancy: cada prefixo, IP, VLAN, circuito ou equipamento pode ser associado a um cliente, o que permite responder na hora "o que este cliente usa na rede".
  • Contatos: responsáveis técnicos de clientes, fornecedores e sites, ligados aos objetos.
  • VPNs e L2VPN: túneis, terminações e serviços L2 como VPLS e EVPN.

Campos personalizados, tags e contextos

Nenhum modelo de dados cobre todas as redes. O NetBox pode ser estendido sem alterar o código:

  • Campos personalizados em qualquer tipo de objeto, como o código do cliente no ERP, o plano contratado ou o as-set de um peer BGP.
  • Tags para marcar e filtrar objetos, como "monitorar", "migrar" ou "cgnat".
  • Contextos de configuração (config contexts): dados em JSON aplicados por site, região, função ou plataforma, como servidores NTP, syslog e DNS de cada POP.
  • Modelos de configuração (config templates) em Jinja2, que geram a configuração de um equipamento a partir dos dados cadastrados.
  • Plugins da comunidade e da NetBox Labs para BGP, DNS, inventário de topologia, ramificações de alteração e muito mais.

API, eventos e scripts

É aqui que o NetBox deixa de ser documentação e vira infraestrutura. Tudo o que aparece na interface está disponível na API REST e na API GraphQL, com tokens e as mesmas permissões dos usuários.

Um exemplo simples: listar os IPs de um prefixo.

bash
curl -s -H "Authorization: Token SEU_TOKEN" \
  "https://netbox.exemplo.net.br/api/ipam/ip-addresses/?parent=203.0.113.0/24" \
  | jq -r '.results[] | "\(.address) \(.dns_name)"'

Além da API:

  • Regras de evento e webhooks: quando um objeto é criado, alterado ou removido, o NetBox chama uma URL ou executa um script. Por exemplo, avisar a automação de que um IP novo precisa de PTR.
  • Scripts personalizados em Python, executados pela interface ou pela API, para tarefas como provisionar um cliente novo (prefixo, VLAN, IPs e interface) em um único formulário, ou verificar se todo equipamento tem IP de gerência e número de série.
  • Bibliotecas e integrações prontas: pynetbox para Python e o inventário dinâmico do Ansible, que monta os grupos de hosts a partir de sites, funções e plataformas.

Casos de uso em provedores

  • Reverso DNS automático. O nome DNS de cada IP cadastrado gera os registros PTR das zonas reversas, sem edição manual.
  • Filtros BGP. Prefixos e ASNs dos clientes cadastrados no NetBox alimentam as prefix-lists, em conjunto com o IRR.
  • Provisionamento de clientes corporativos. Um script reserva o bloco, a VLAN e os IPs ponto a ponto, e a automação aplica no concentrador e no switch.
  • Monitoramento sincronizado. Equipamentos ativos no NetBox viram hosts no Zabbix com os templates certos, e equipamentos desativados saem do monitoramento.
  • Documentação de POPs. Racks, cabos, circuitos e contatos de cada POP acessíveis para o NOC e para o técnico em campo.
  • Auditoria. Relatórios de IPs sem uso, prefixos quase cheios, equipamentos sem contrato de suporte e diferenças entre o cadastro e a rede real.

O que considerar antes de adotar

O NetBox é tão útil quanto os dados que tem. Os projetos que dão errado costumam tropeçar nos mesmos pontos:

  • Modelagem. Decidir como representar POPs, clientes, VRFs, CGNAT e serviços antes de cadastrar. Refazer a modelagem com milhares de objetos cadastrados é caro.
  • Migração dos dados. Planilhas, phpIPAM e documentos antigos têm duplicidades e informações erradas. Importar sem limpar só muda o problema de lugar.
  • Dados confiáveis desde o início. Descobrir a rede real (equipamentos, interfaces, IPs) e comparar com o que foi importado.
  • Processo. Se a equipe continuar alterando a rede sem passar pelo NetBox, em poucos meses ele vira mais uma planilha desatualizada. A automação lendo do NetBox é o que mantém todos usando.
  • Operação. Backups do PostgreSQL, atualizações de versão (com plugins compatíveis) e controle de acesso.

Do tutorial à produção

Instalar o NetBox é a parte fácil. O valor aparece quando ele está modelado para a sua rede, com dados confiáveis e ligado à automação, e é essa parte que este tutorial não cobre:

  • Modelagem para provedores. POPs, CGNAT, PPPoE, clientes corporativos, trânsito e peering representados de forma que a automação consiga usar.
  • Migração e saneamento. Importação de planilhas, phpIPAM e documentação antiga, com remoção de duplicidades e conferência contra a rede real.
  • Integrações. Reverso DNS, filtros BGP, Zabbix, provisionamento de clientes e configuração dos equipamentos gerados a partir do NetBox.
  • Scripts e relatórios sob medida. Provisionamento em um formulário, auditorias periódicas e alertas de capacidade.
  • Operação contínua. Atualizações, backups, plugins e ajustes conforme a rede cresce.

Perguntas frequentes

O NetBox é gratuito?

Sim. O NetBox é open source, sob licença Apache 2.0, e pode ser instalado em servidor próprio sem custo de licença. A NetBox Labs, empresa que mantém o projeto, também oferece versões em nuvem e com suporte comercial.

O NetBox configura os equipamentos da rede?

Não diretamente. O NetBox é a fonte da verdade: guarda como a rede deve estar. Quem aplica a configuração são as ferramentas de automação (Ansible, scripts, Nornir e outras), que leem os dados do NetBox pela API.

Qual a diferença entre o NetBox e o phpIPAM?

O phpIPAM é focado em endereçamento IP. O NetBox cobre IPAM e também DCIM (racks, equipamentos, cabos, energia), circuitos, virtualização e tem uma API mais completa, pensada para automação. Para quem quer automatizar a rede, o NetBox costuma ser a escolha.

O NetBox substitui o Zabbix ou outra ferramenta de monitoramento?

Não. O NetBox registra o que existe e como deveria estar; o monitoramento mede o estado real. Os dois se complementam: é comum gerar os hosts do Zabbix a partir do cadastro do NetBox.

CONSULTORIA BTECH

Prefere que alguém faça isso por você?

A BTECH Automations é uma consultoria em automação, redes e cloud para provedores, operadoras e empresas de hospedagem. Implementamos NetBox e automação de redes de ponta a ponta, documentamos e mantemos funcionando, com um pacote mensal de horas e relatório de cada atividade.

  • ✓ Filtros BGP, IRR, RPKI e DNS automatizados
  • ✓ Zabbix, Grafana, logs e alertas sob medida
  • ✓ Cloud, virtualização, backups e portais do cliente

Outros tutoriais