BTECH Automations

CGNAT

CGNAT em provedores: logs de porta, NAT determinístico e o Marco Civil

Como guardar os registros de conexão de clientes atrás de CGNAT: porta de origem, alocação por blocos, NAT determinístico, volume de logs, sincronismo de horário e resposta a ofícios.

Por Rodrigo Borges, BTECH Automations · · 10 min de leitura

O CGNAT resolveu a falta de IPv4 nos provedores, mas criou um problema jurídico: quando chega um ofício pedindo a identificação de quem usou um IP em determinado horário, aquele IP estava sendo usado por dezenas de clientes ao mesmo tempo. Sem a porta de origem e registros confiáveis, o provedor não consegue responder.

Neste tutorial você vai entender o que precisa ser registrado, as três formas de fazer isso, o impacto de cada uma no volume de logs e o que garante que os registros valham quando forem necessários. Não é orientação jurídica: para o enquadramento legal do seu caso, consulte um advogado.

Por que o IP não basta

Sem CGNAT, cada cliente recebe um IP público, e o registro "IP X, das 10h às 18h, cliente Y" basta para identificar quem estava conectado. Com CGNAT, o cliente recebe um IP da faixa 100.64.0.0/10, e o concentrador traduz as conexões dele para um IP público compartilhado, diferenciando os clientes pela porta.

Um site ou serviço de terceiros registra algo como:

log do destino
2026-10-17 14:32:07 -0300  origem 203.0.113.45:51234  →  destino 198.51.100.10:443

Para chegar ao cliente, o provedor precisa responder: naquele segundo, quem estava usando a porta 51234 do IP 203.0.113.45? Isso só é possível com o IP público, a porta e o horário exato, e só se o provedor tiver guardado como cada porta estava mapeada.

O que o Marco Civil exige

O Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) obriga o provedor de conexão a guardar os registros de conexão por 1 ano, sob sigilo, em ambiente controlado e de segurança. Esses registros são a data e a hora de início e término da conexão, a duração e o endereço IP usado.

A lei não fala em porta, porque foi escrita pensando em IPs exclusivos. Mas, com CGNAT, o IP sozinho não identifica ninguém, e decisões judiciais têm exigido a porta lógica de origem justamente por isso. Na prática, o provedor que usa CGNAT precisa ser capaz de chegar do trio IP, porta e horário ao cliente, pelo mesmo prazo.

Três formas de registrar o NAT

FormaO que é registradoVolume de logs
Log por sessãoCada conexão traduzida: IP privado, IP público, porta, horário de início e fimEnorme: bilhões de linhas por mês em provedores médios
Alocação por blocos de portas (PBA)Só quando um bloco de portas é atribuído e liberado para um clienteBaixo: algumas linhas por cliente por dia
NAT determinísticoNada por sessão: cada IP privado sempre usa a mesma faixa de portas do mesmo IP públicoMínimo: só a configuração e o histórico dela

O log por sessão é o mais simples de ativar e o mais caro de manter: armazenamento, indexação e, principalmente, a busca, que precisa achar uma linha entre bilhões quando chega o ofício. A maioria dos provedores que começam assim acaba migrando para uma das outras duas formas.

NAT determinístico na prática

No NAT determinístico (descrito no RFC 7422), a relação entre IP privado e porta pública é uma conta fixa. Com 2.000 portas por cliente, por exemplo:

mapeamento
IP público 203.0.113.45
  cliente 100.64.0.0  → portas  1024 a  3023
  cliente 100.64.0.1  → portas  3024 a  5023
  cliente 100.64.0.2  → portas  5024 a  7023
  ...
  cliente 100.64.0.31 → portas 63024 a 65023

Para responder "quem usava 203.0.113.45:51234", basta fazer a conta inversa e chegar ao IP privado 100.64.0.25. Depois, os registros de autenticação dizem qual cliente estava com esse IP privado naquele horário.

As vantagens são claras: nenhum log por sessão, consulta instantânea e nada que se perca se o servidor de logs cair. Os pontos de atenção:

  • A configuração vira registro. Qualquer mudança no mapeamento (mais IPs públicos, outro tamanho de bloco) precisa ser guardada com data e hora de início e fim de validade, pelo mesmo prazo.
  • Portas fixas por cliente. Um cliente que esgota as portas dele não pega emprestadas de outro, então o tamanho do bloco precisa ser bem escolhido.
  • Cada fabricante implementa de um jeito. Alguns concentradores fazem nativamente; em outros o mapeamento é montado com regras, e um erro na regra quebra a conta.

Quantos clientes por IP público

Cada IP público tem 64.512 portas utilizáveis (de 1024 a 65535). A divisão depende de quantas portas cada cliente precisa:

Portas por clienteClientes por IPQuando faz sentido
1.00064Uso leve, poucos dispositivos por casa
2.00032Ponto de partida comum em residencial
4.00016Muitos dispositivos, jogos, aplicativos com muitas conexões

Portas de menos geram reclamações difíceis de diagnosticar: páginas que carregam pela metade, jogos que desconectam, câmeras que caem. Portas de mais desperdiçam IPv4, que custa caro. O número certo vem da medição do uso real dos seus clientes, não de uma tabela.

Do ofício ao cliente: a cadeia de registros

Responder um ofício com CGNAT exige cruzar três registros diferentes, cada um com o próprio prazo de guarda:

  1. NAT: IP público, porta e horário levam ao IP privado (pelo log, pelo bloco atribuído ou pela conta do determinístico).
  2. Autenticação: o accounting do RADIUS diz qual login estava com aquele IP privado naquele momento.
  3. Cadastro: o login leva ao contrato e aos dados do cliente.

Se qualquer elo falhar, a resposta é "não foi possível identificar". E se um elo estiver errado, o problema é pior: o provedor identifica a pessoa errada.

Cuidados que invalidam os registros

  • Relógio. Concentradores, servidores RADIUS e servidores de log sincronizados por NTP. Alguns segundos de diferença bastam para apontar outro cliente, já que IPs privados e portas são reaproveitados o tempo todo.
  • Fuso horário. O ofício pode vir em UTC, em horário de Brasília ou no horário do servidor de destino. Registros sem fuso explícito geram dúvida sobre qual hora é qual.
  • Lacunas. Um servidor de log que encheu o disco ou ficou fora do ar por um dia é um dia sem como responder.
  • Integridade. Registros que podem ser alterados sem deixar rastro têm valor questionável. Cópias imutáveis e controle de acesso fazem parte do "ambiente controlado e de segurança" da lei.
  • Teste. O único jeito de saber se a cadeia funciona é testar: escolher uma conexão real, anotar IP, porta e horário e verificar se o processo chega ao cliente certo.

Do tutorial à produção

Entender o que guardar é o primeiro passo. Montar um CGNAT que responda ofícios corretamente por um ano inteiro, em todos os concentradores, é o que este tutorial não cobre:

  • Escolha e implantação do modelo. Determinístico, por blocos ou por sessão conforme os seus concentradores, com o tamanho de bloco medido no uso real.
  • Guarda dos registros. NAT, RADIUS e histórico de configuração guardados por um ano, com integridade, cópia e controle de acesso.
  • Consulta em minutos. Uma ferramenta interna que recebe IP, porta e horário e devolve o cliente, sem depender de alguém procurar em arquivos.
  • Relógio e fuso confiáveis. NTP em todos os elementos, monitorado, e registros com fuso explícito.
  • IPv6 em paralelo. Quanto mais tráfego em IPv6, menos sessões no CGNAT e menos pressão sobre os registros.

Perguntas frequentes

Por quanto tempo o provedor deve guardar os logs de CGNAT?

O Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) determina que o provedor de conexão guarde os registros de conexão por 1 ano, sob sigilo e em ambiente controlado e seguro. Com CGNAT, o registro só identifica o cliente se incluir a porta, então os logs de NAT precisam seguir o mesmo prazo.

NAT determinístico dispensa guardar logs?

Dispensa o log de cada sessão, mas não todos os registros. Ainda é preciso guardar a configuração do mapeamento com o período de validade de cada versão e os registros de autenticação (RADIUS), que dizem qual cliente estava com cada IP privado em cada momento.

Qual faixa de IP usar no CGNAT?

A faixa 100.64.0.0/10, reservada para esse uso pelo RFC 6598. Ela não conflita com as redes privadas (10.0.0.0/8, 172.16.0.0/12 e 192.168.0.0/16) que os clientes usam dentro de casa.

O IPv6 resolve o problema dos logs?

Para o tráfego IPv6, sim: cada cliente tem o próprio prefixo e o registro de conexão volta a ser só o endereço e o horário. Mas enquanto houver tráfego IPv4 passando pelo CGNAT, os registros de porta continuam necessários.

CONSULTORIA BTECH

Prefere que alguém faça isso por você?

A BTECH Automations é uma consultoria em automação, redes e cloud para provedores, operadoras e empresas de hospedagem. Implementamos CGNAT e guarda de registros para provedores de ponta a ponta, documentamos e mantemos funcionando, com um pacote mensal de horas e relatório de cada atividade.

  • ✓ Filtros BGP, IRR, RPKI e DNS automatizados
  • ✓ Zabbix, Grafana, logs e alertas sob medida
  • ✓ Cloud, virtualização, backups e portais do cliente

Outros tutoriais